Conhecia o Rio somente de dia. Sabia das praias, dos shoppings, dos passeios na Lagoa e só. O vetor por onde veio toda a revelação da outra face carioca só podia ser um: Lapa. Não foi a primeira vez que visitei o bairro boêmio do Rio, mas das outras 2 experiências, em nenhuma entrei em transe tamanha quanto a da sexta-feira passada.
Não fui movido por bebida ou outras drogas mais. Fui infectado pelas cenas que saltavam que só os que têm olhos de poeta podem perceber. Para amantes do samba, como eu, só o fato de andar na Lapa já emociona. Conviver com a idéia de que na mesma rua apertadinha, calçada com pedra-sabão, ladeada pelos lindos sobrados, andaram tantos mestres meus foi única. Juro que, em um momento de confidência minha com a madrugada, olhei a minha sombra do mesmo jeito que tantos outros bambas olharam para as suas: com amor.
A Lapa não tem dono, é terra de ninguém. Não segue estética nenhuma. Na simples caminhada que dei dos Arcos ao Beco do Rato, deparei-me com pessoas independentes de convenções e fiéis a suas próprias doutrinas. O som da Lapa não é único. É o berço do samba, assim como do funk, do hip-hop, do rock e de outras coisitas mais. Na Lapa não cabe preconceito.
Não há distinção de nada. Credo, raça ou cor. Acredito que a Lapa seja o único lugar onde se mescla comunismo, anarquia e capitalismo sem nenhuma explosão. Você pode falar, claro que com alguma noção, com a mocinha ou o bandido sem perceber que corre o risco de apaixonar-se ou ser assaltado.
Apesar de ter usado tantos nãos no meu texto, a Lapa é a terra do sim no Rio de Janeiro. Onde tudo é permitido e onde tantas histórias são escritas e reescritas em paralelo, começando todas de um ponto em comum, o lugar. A outra face do Rio não é perigosa ou violenta como muitos desenham. A outra face do Rio de Janeiro não é nada mais nada menos que a subversão da subversão. E eu gosto é do estrago mesmo.
Um comentário:
demais!
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